"Eu sou Gaúcho e me chega pra ser feliz no Universo" ("Eis o Homem", Marco Aurélio Campos)
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quarta-feira, 28 de novembro de 2012
HERDEIROS DE SEPÉ
No último final de semana, estivemos participando de mais um belíssimo festival: o 6º Gruta em Canto, em Nova Esperança do Sul.
Lá, Robson Garcia (autor da melodia) interpretou a milonga "Herdeiros de Sepé", tendo a seu lado no palco os violões de Érlon Péricles e Fabrício Benitez e o guitarrón de Juliano Moreno.
Abaixo, a letra:
HERDEIROS DE SEPÉ
(Letra: marcelo d´ávila
Melodia: Robson Garcia)
Os pés descalços ainda são os mesmos
Andando a esmo nos beirais da estrada
Os trapos gastos é que são diversos
Da velha força guarani: mais nada.
Mesmos os olhos, mesma a tez da pele,
Igual a luta pelo pão diário;
A mão aberta, estendida a palma,
Espera em vão, o gesto solitário.
É o mesmo sangue do ancestral guerreiro
Que ousou gritar que a pampa tinha dono;
E em vez de ter a terra prometida
Herdou apenas fome e abandono.
Ficou, da velha raça guarani,
Somente a pele, o olhar, os pés descalços
Pois seus herdeiros trazem a incerteza
De haver sonhado tantos sonhos falsos.
Hoje vagueiam pelos vãos das pontes,
Vendem balaios, pedem caridade;
Pra quem, um dia, foi dono da terra
Restou o frio concreto da cidade.
Gracias ao time todo - e à comunidade de Nova Esperança do Sul pela recepção e carinho com que fomos tratados. E parabéns a todos os vencedores.
Fotos de Cláudia Albornoz.
marcelo d´ávila
terça-feira, 31 de julho de 2012
DIÁLOGO DE LUZ E SOMBRA
Depois de seis meses sem atualizar o blog, é com muita satisfação que o faço com mais uma premiação: desta feita, na 32ª Coxilha Nativista de Cruz Alta (o festival mais longevo do Rio Grande, sendo realizado de forma ininterrupta nestes 32 anos).
"Diálogo de Luz e Sombra", rasguido doble em parceria com Juliano Moreno, levou, além do primeiro lugar, as premiações de Melhor Arranjo Instrumental, Melhor Conjunto Vocal e Melhor Instrumentista (Clarissa Ferreira, no violino). Premiação ainda mais valorizada pelo alto nível das composições presentes.
Gracias mil ao time que a defendeu no palco, de forma brilhante: Juliano Moreno e Gustavo Teixeira (intérpretes), Daniel Cavalheiro e Edilberto Teixeira Neto (violões), Cristian Camargo (guitarron), Carlos de Césaro (contrabaixo), Fabrício Pedroso (acordeom cromático) e Clarissa Ferreira (violino).
Muchas gracias também ao povo de Cruz Alta e à organização da Coxilha, impecável (Comissão Social Nota 10!). Ainda, Clarissa Moura, Marçal Furian, Marco Aurélio Vasconcellos, Telmo Vascocelos, Juliana Miranda, Juliana Camargo, Robledo Martins, Juliana Spanevello, Joca Martins, Marcelo Oliveira, Guga Carrera, Vilmar Vila de Menezes, Dodo Gonzales, Zeca Alves.
E gracias, sempre e especialmente, à minha prenda, Cláudia Albornoz.
DIÁLOGO DE LUZ E SOMBRAS
(Honório):
- Quem chega em meu rancho sem dar “Ó de casa!” –
Com passos pesados, embora em silêncio?
Envolto num poncho de noite sem lua,
Pilchado de sombras – será quem eu penso?
(“O Outro”):
- Se enxergas meu vulto de bota e bombacha,
É só uma forma, das muitas que tenho:
Meu nome não digo, nem mostro meu rosto
Mas sei que imaginas quem sou e a quê venho.
Em cada refrega estive a teu lado
No Passo do Guedes, no teu Caverá –
Agora é o momento da paz derradeira:
Meu zaino te espera do lado de lá.
(Honório):
- Meu nome é Honório, me chamam Leão!
Tracei meus caminhos a ponta de adaga!
(“O Outro”):
- Descansa tuas armas, vem junto comigo,
Que a vida é candeeiro que um dia se apaga!
(Honório):
- Nas minhas batalhas venci tantas vezes
Em outras sofri o amargo revés.
Mas este combate já sei que é perdido
Porque finalmente percebo quem és.
- Gastei meus outonos em bárbaras lutas,
Tingindo de sangue o Ibirapuitã
E bem quando chegas, buscando por mim,
Vislumbro o horizonte de um novo amanhã.
(“O Outro”):
- O corpo cansado já pede repouso,
O braço fraqueja empunhando a garrucha.
Te levo comigo mas deixo gravado
Teu sonho imortal na alma gaúcha.
(“O Outro”)
- Teu nome é Honório, te chamam Leão!
Teus feitos ficaram na tarca da história!
(Honório):
- Estende tua mão: vou junto contigo,
Meu tempo é passado! O resto é memória.
marcelo d´ávila
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
ESSAS MENINAS
Entendo que a missão do poeta é passar algum tipo de mensagem a quem o ouve ou lê. Relembro, sempre, o verso de Hernandez no épico Martin Fierro: "...yo canto opinando / que es mi modo de cantar".
Pois neste final de semana aconteceu a 30ª Gauderiada de Rosário do Sul. Participei com a zamba "Essas Meninas", em parceria com Tuny Brum.
Roland Barthes dizia que a poesia deve ser "fruto de um surto". Ignoro se "Essas Meninas" foi um surto; mas, com certeza, foi difícil e doloroso compô-la, por seu teor. Tuny foi brilhante ao colocar a melodia.
Brilhante também foi Analise Severo, a quem agradeço imensamente. Uma aula de interpretação; muito mais que voz, Analise foi toda emoção e sentimento no palco.
Por fim, agradeço a todo o time que levou a zamba ao palco: Analise, Tuny, Marcelo, Paulinho, Ithi e Elias. Gracias mil. E, especialmente, à minha fotógrafa favorita, minha prenda Cláudia Albornoz (autora de todas as imagens postadas).
Abaixo, a letra:
ESSAS MENINAS
No brete escuro
De cada rua
A luz da lua
É um clarão que se insinua
Iluminando a silhueta pequenina
Dessas meninas
Que se vendem nas esquinas.
Não são mulheres
Nem são crianças:
A esperança se perdeu
Num quarto escuro;
Foram-se os sonhos
E quebraram-se os brinquedos
Ficou o medo
E a incerteza no futuro.
Igual aos rios que tem seus cursos desviados
Matando a sede das sementes pelas tardes
Essas meninas têm roubada sua infância
No cotidiano indiferente das cidades.
Nas avenidas,
Pelas esquinas,
Essas meninas
Vão cumprindo
Suas sinas:
Tropa perdida
Entre refregas
E disputas
Que a vida bruta
Abandonou na reculuta.
Igual aos rios que tem seus cursos desviados
Matando a sede das sementes pelas tardes
Essas meninas têm roubada sua infância
No cotidiano indiferente das cidades.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
PRA INGLÊS VER
Bruna, nossa filha, vai passar 3 semanas na Europa (Londres, Edimburgo, Paris)fazendo intercâmbio e estudando inglês. A pedido dos coordenadores, planejou, desenvolveu e editou um vídeo para divulgar o Rio Grande por lá. As fotos, em sua maioria, são de minha esposa, Cláudia Albornoz ( http://www.click-chique.blogspot.com ) e a música é "Quando o Rio Grande Corre Pelas Veias", parceria minha com Robinho Garcia (vencedora da XIX Tertúlia Nativista de Santa Maria)
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
GRACIAS, ZÉ CLÁUDIO
Na 9ª Tertúlia Nativista de Santa Maria, em 1988, com 19 anos (eu jamais imaginava ganhar este festival um dia...), tive a oportunidade de ver e aplaudir em pé a composição "De Como Cantar Um Flete", letra de Gaspar Machado e melodia de Lúcio Yanel. No palco, dois gigantes: o próprio Lucio (que saiu do ginásio de ambulância, com uma isquemia cerebral transitória) e Zé Cláudio Machado. Por estas e outras, hoje agradeço ao mestre que nos deixa - e quem, por desventura, não conheci pessoalmente: Gracias, Zé Cláudio.
Abaixo, uma pequena homenagem diante da enormidade artística de Zé Cláudio.
Quantos cavalos quedarão sem garras?
Quantas guitarras em silêncio triste?
O próprio campo perderá seu gáudio
Porque Zé Cláudio já não mais existe.
Quantas cordeonas com seus foles rotos?
E quantos potros sem provar esporas?
Não mais milongas ternas em prelúdio
Porque Zé Cláudio já se foi embora.
Mas para sempre ficará o encanto
Daquele canto forte como um cerno –
É o Rio Grande em seu valor mais áureo
Porque Zé Cláudio já nasceu eterno.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
QUANDO O RIO GRANDE CORRE PELAS VEIAS
"Quando o Rio Grande Corre Pelas Veias", milonga em parceria com Robson Garcia, foi a vencedora da XIX Tertúlia Nativista de Santa Maria.
Gracias Robinho, Juliano Moreno, Daniel Cavalheiro e Volmir Coelho, pela dedicação e brilhantismo no palco.
Gracias, Fernando, Mano, Modesto, Guto, Saccol, Diahy, Gadea,Bibiana, Caiaffo, Volmaris, pelo apoio.
Gracias, especialmente, a minha prenda, Cláudia Albornoz, que amo cada dia mais.
Abaixo, a letra:
QUANDO O RIO GRANDE CORRE PELAS VEIAS
Nalgum fundo de campo da fronteira
Um índio bem montado mira ao longe
E a pampa inteira cabe nos seus olhos
Repletos de coxilhas e horizontes.
Há muito de querência neste homem,
Há séculos de história escrita em versos
E a herança da Campanha se reflete
Na simples amplitude de seus gestos.
A singeleza de cevar um mate
E alçar a perna pra espiar estrelas
É a liturgia do ritual campeiro
Quando o Rio Grande corre pelas veias.
Nalgum fundo de campo da fronteira
Com a proteção sagrada do chapéu
Um índio afina as cordas da guitarra
Olhando a pampa comungar com o céu.
Sou eu o homem que bombeia ao longe
Repleto de coxilhas e distâncias;
O campo é minha razão, é minha essência,
Porque eu sou eu e minhas circunstâncias.
Foto: Cláudia Albornoz
terça-feira, 11 de outubro de 2011
A LIÇÃO DE MARTIM FIERRO
No último final de semana estive em Quaraí, quando da realização do II Canto ao Saladeiro, promovido pelo Piquete Manoel Luis Osório, onde classificamos duas músicas para a final e para compor o CD do evento: "Milonga Para Rio Negro", em parceria com Penna Flores (que foi defendida de forma brilhante por Alex Har), e "A Lição de Martim Fierro", parceria com Juliano Moreno, na voz de Robinho Garcia.
Para satisfação do grupo, conseguimos o terceiro lugar com esta última, da qual posto a letra abaixo.
Gracias a todos: Robinho, Alex, Cezar e Fabrício e Juliano e Penna pela parceria.
"A Lição de Martim Fierro" foi minha primeira parceria com Juliano Moreno, ainda no ano de 2004, e sua letra é baseada em uma estrofe do clássico de Hernandez:
"Yo he conocido cantores
Que era un gusto escuchar
Mas no quieren opinar
Y se divierten cantando
Pero yo canto opinando
Que es mi modo de cantar"
Parabéns a todos os participantes e sobretudo aos vencedores: Mario Eleú e Dudu Monteiro, com a belíssima "Mala Vazia" (em interpretação fantástica de Jean Kirchoff), Primeiro Lugar, e Domingos Dornelles e Jorge Abella, pelo Segundo Lugar com "Um Tempo Pra Mim".
Abaixo, a letra de "A Lição de Martim Fierro"
Sou dos que opinam cantando
Porque creio na palavra;
Semente de boa lavra
Floresce até no deserto.
O bom ginete, por certo,
Não roda nem se escalavra.
Sou de cantar opinando,
Não canto por diversão.
Na mesa onde falte o pão,
No rancho onde falte a sorte:
Aí cantarei mais forte
Meu canto com opinião.
Meu canto tem a crueza
Do verso em matéria bruta
Que se estende em reculuta
Pra destravar as tramelas
E abrir portas e janelas
Na ideia de quem me escuta.
A lição de Martim Fierro
É clara como uma luz
E se algum Sargento Cruz
Quiser seguir a meu lado
Basta fazer um costado
Pra estes versos que compus.
Quem canta por conveniência
Pensando só em agradar
Com medo de contrariar
Tantas vaidades alheias
Deixa que que botem maneias
E buçal no seu cantar.
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
DIBUJOS DE DON FLORENCIO
Recebi o CD "Clube da Esquila", do Pirisca, de regalo da Mônica Boeira ( Gracias, Mônica! - http://twitter.com/#!/monicaboeira ); uma das faixas, "Dibujos de Don Florencio", do Cabo Deco, Pirisca e Tukano Netto, faz menção a Florencio Molina Campos, ilustrador argentino nascido em Buenos Aires, em 1891, e falecido na mesma cidade em 1959.
Florencio Molina Campos realizou sua primeira exposição na "Feria Ganadera de Palermo", em 1926: 61 telas e aquerelas com caricaturas, as quais vendeu todas. Com este sucesso, a Fábrica Alpargatas contratou-o para confeccionar seu almanaque no período de 1931-1936 e 1940-1945, constituindo a primeira pinacoteca argentina. Refletiu em sua obra temas da vida campeira argentina e dos gaúchos e "paysanos", temática que cultivou tanto em pinturas quanto em ilustrações e caricaturas. Seus trabalhos foram expostos em Paris, Nova Iorque e Los Angeles, tendo sido contratado por Walt Disney como Supervisor de seus desenhos animados em 1941. Ilustrou o "Fausto", de Estanislao del Campo (ver "Os Pioneiros").
Abaixo, algumas ilustrações do gênio.
Para visitar o site oficial: http://www.molinacampos.net
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
OS PIONEIROS V
CLAUDIO MAMERTO CUENCA foi um dos pioneiros de uma classe que vem revelando, ao longo do tempo, autores de qualidade ímpar, do quilate de um Aureliano de Figueiredo Pinto ou de um Balbino Marques da Rocha: os médicos poetas.
Nascido em Buenos Aires em 30 de outubro de 1812, iniciou seus estudos médicos na Universidad de Buenos Aires em 1838, onde publicou a tese "Las Simpatias en sus Relaciones con la Fisiologia, Patologia y Terapeutica". Sua discrição em revelar-se como poeta fez com que sua obra fosse publicada apenas em 1861, nove anos após sua morte.
Foi médico pessoal de Rosas, participando da Batalha de Caseros; enquanto atendia dois feridos atrás do Monte Palomar, foi crivado de balas pelo Tenente-coronel León Pallejas e pelo Capitão Tomás Larrogoitía, em 3 de fevereiro de 1852. No bolso de seu jaleco, ao morrer, foi encontrado um poema intitulado "Mi Cara".
O poeta Heraclio Fajardo compilou e publicou suas "Poesias Completas" em três volumes, no ano de 1961.
Abaixo, trechos de "El Pampero":
De las brisas y vapores
de aquel solitario suelo,
tan inmenso como el cielo
que allá entredivisa el hielo
de los Andes relumbrar;
y de los hálitos vagos
de los espíritus magos,
que en sus llanuras sin lagos
deben sin rumo vagar;
y de la bruma y del aire,
de la templanza y del frío,
la sequedad y el rocío,
el misterio y el vacío
de la llanura del sud;
naces, pampero, cual nace
todo aquello que Dios hace,
cuando a los designios place
de su eterna rectitud.
Y como hijo de la pampa
que ocupa medio hemisferio
y extiende hasta allá su imperio
donde ciñe el cielo aerio
de los Andes la alba sien;
eres como ella un coloso,
inconmensurable, asombroso,
genio inculto y misterioso
nacido en silvestre edén.
(...)
Imagem: "Interior de una Pulperia" (1862), de Juan Leon Palliere, pintor e litógrafo brasileiro de origem francesa (1823-1887); nascido no Rio de Janeiro, aos 7 anos mudou-se com a família para Paris e, em 1855, para Buenos Aires, onde vive por 10 anos. Com viagens frequentes a Montevideo, foi um estudioso da vida do campo, tornando-se um verdadeiro historiador gráfico de uma época.
sábado, 13 de agosto de 2011
A VOZ DO PAI
Na postagem do Bahstidores (http://bahstidores.blogspot.com) sobre o Dia dos Pais, escrevi que jamais consegui compor um poema em homenagem a meu pai, Dr. Cidiney Garcia Marques D´Ávila, falecido em 1998: sua ausência é muito maior que minha poesia. Nem sempre, mestre Pessoa, o poeta é um fingidor.
Por isso, tomo de empréstimo os versos de Odilon Ramos para homenagear todos os pais neste domingo.
Um grande abraço!
A VOZ DO PAI
Odilon Ramos
O pai, em casa, era uma autoridade.
Dizia o que podia e o que não podia.
Determinava o certo e o errado.
A voz do pai era uma voz sagrada.
Grave, pausada para dar conselho.
Firme e bem forte pra passar as ordens.
A voz do pai sabia contar causos...
Causos que ouvira seu pai contar.
Era uma vez... e lá vinha uma história...
com bichos que falavam, gente que voava,
magos poderosos e casas assombradas.
E a gente, tão criança e inocente,
galopava na garupa da imaginação.
Quanta emoção a voz do pai nos transmitia.
À mesa, hora da janta, ninguém se servia
antes de ouvir o pai, rendendo graças.
E a família, reverente, olhos fechados,
ao fim arrematava num... amém.
E os versinhos que o pai dizia.
Ninguém sabia tantos quanto ele;
"Eu sabia tanto verso,
Eu sabia um sacho cheio,
As formigas me bateram,
Me deixaram pelo meio".
E às vezes... às vezes o pai cantava.
E o pai cantando era a cantiga mais linda que eu ouvi....
Modinhas, hinos, ternos "oilarai"... e a filharada fazia coro.
E cada um com sua voz queria imitar a voz do pai.
A voz do pai tocava os bois na canga:
Barroso!... cola branca!... êra boi!...
E chamava o cavalo no potreiro: "ô, ô, ô, ô".
E atiçava o cachorro nos gambás:
"fiu, fiu, fiu, fiu", pega, pega, pega...
E os bichos (até os bichos)
Conheciam e obedeciam aquela voz...
A voz do pai tinha hora pra tudo.
Pra dar uma risada de um causo bem contado.
Ou pra ralhar se a gente desleixava...
Barbaridade...
Quando aquela voz trovejava uma ameaça,
Fazia a gente estremecer de medo.
Talvez fosse melhor dizer: respeito.
A voz do pai só nunca soube se queixar de nada.
Gemer até podia, se a dor era muita.
Chorar, se permitia, pelo sentimento.
Mas um queixume, uma lamúria ou maldição,
Isso jamais se ouviu da voz do pai.
"A la pucha"...
Parece que foi ontem...
É tão viva a lembrança,
Que parece que ainda ouço tua voz,
Meu velho...
E às vezes, quando falo com o meu filho,
Dou rédea ao sentimento e o som que sai
Me faz escaramuçar o coração no peito...
Pois ouço, de mim mesmo, a voz do pai!
quarta-feira, 20 de julho de 2011
CENA RURAL V
A ideia inicial da série "Cenas Rurais", além de divulgar o excelente trabalho fotográfico de Cláudia Albornoz (minha prenda), é levar aos leitores e visitantes do blog um pouco do telurismo, do bucolismo e da simplicidade da Região da Campanha. Hoje, no entanto, abro uma exceção: os versos trazem a indignação com a inércia que tomou conta da Fronteira. Certamente que não estão à altura da foto, mas soam como um grito de alerta.
Gracias a todos.
Uma tapera esquecida
Pros lados da Caneleira
Parece o fiel retrato
Da situação da fronteira.
Um velho marco judiado
Meio com cara de sono
Completa o quadro real
De descaso e abandono.
Há quem diga que os bons ventos
Que sopram no Cerro Chato
Possam mudar a verdade
Pintada neste retrato.
Mas “quem sabe faz a hora” –
Já ensinava a canção –
Se um pingo passa encilhado
Não se perde a ocasião.
Erguer os olhos pro céu,
Braços cruzados, à espera,
Não vai tirar da fronteira
Seu destino de tapera.
Foto: Claudia Albornoz, região da Caneleira, Santana do Livramento/Rivera, maio de 2011
Versos: marcelo d´ávila, julho de 2011
domingo, 19 de junho de 2011
MEU VERSO CHIMARRÃO
"A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria (...)" - William Shakespeare, McBeth, Cena V, Ato V
Nos dias 15, 16 e 17 de Abril, ocorreu na cidade de Bagé a 8ª Galponeira, no Parque do Gaúcho.
Um público expressivo compareceu ao local, prestigiando o evento que apresenteou alto nível nas composições, com participação de intérpretes como Pirisca Grecco, Marcelo Oliveira, Matheus Leal, Ita Cunha, Rafael Capistrano, Daniel Cavalheiro, entre outros.
Tive a honra, mais uma vez, de ter uma composição classificada para o CD: o Chamamé "Meu Verso Chimarrão", parceria com Juliano Moreno, levada ao palco de forma brilhante pelo Juliano, Érlon Péricles, Clóvis de Souza, Daniel Cavalheiro, Marcelinho Nunes e Clarissa Ferreira. A todos meu muchas gracias! E também meu agradecimento a Davi Teixeira, Rodrigo Tavares, Francisco Brasil, Fabinho Maciel e Betinho Teixeira.
Abaixo, a letra de "Meu Verso Chimarrão" e a foto do corpo de jurados.
Em tempo, "chimarrão" era chamado o gado selvagem, sem dono, nos primórdios do século.
É bem verdade que meu verso não tem marca
Pois traz o couro imaculado dos libertos;
É como um potro mal domado que se aparta
Do conformismo e da mesmice de outros versos.
Não tem no lombo aquele estigma do ferro
Que grava em brasa a assinatura de um patrão
Porque bem sabe que a essência de ser verso
É a liberdade plena de fúria e de som.
O verso é vida, o verso é vício e vice-versa,
É ave rara, um verde vale num deserto;
Verdade e dúvida, vertente, é descoberta
Que um verso livre é bem mais vasto que o universo.
E é deste jeito que meu verso não tem marca
Nem traz no couro a cicatriz dos compromissos
Talvez por isso seja um potro que se aparta
Dos que preferem outros versos, sem sentido.
Não tem no lombo aquele estigma do ferro
Que grava em brasa a assinatura de um patrão
Porque bem sabe que a essência de ser verso
É a liberdade plena de fúria e de som.
Nos dias 15, 16 e 17 de Abril, ocorreu na cidade de Bagé a 8ª Galponeira, no Parque do Gaúcho.
Um público expressivo compareceu ao local, prestigiando o evento que apresenteou alto nível nas composições, com participação de intérpretes como Pirisca Grecco, Marcelo Oliveira, Matheus Leal, Ita Cunha, Rafael Capistrano, Daniel Cavalheiro, entre outros.
Tive a honra, mais uma vez, de ter uma composição classificada para o CD: o Chamamé "Meu Verso Chimarrão", parceria com Juliano Moreno, levada ao palco de forma brilhante pelo Juliano, Érlon Péricles, Clóvis de Souza, Daniel Cavalheiro, Marcelinho Nunes e Clarissa Ferreira. A todos meu muchas gracias! E também meu agradecimento a Davi Teixeira, Rodrigo Tavares, Francisco Brasil, Fabinho Maciel e Betinho Teixeira.
Abaixo, a letra de "Meu Verso Chimarrão" e a foto do corpo de jurados.
Em tempo, "chimarrão" era chamado o gado selvagem, sem dono, nos primórdios do século.
É bem verdade que meu verso não tem marca
Pois traz o couro imaculado dos libertos;
É como um potro mal domado que se aparta
Do conformismo e da mesmice de outros versos.
Não tem no lombo aquele estigma do ferro
Que grava em brasa a assinatura de um patrão
Porque bem sabe que a essência de ser verso
É a liberdade plena de fúria e de som.
O verso é vida, o verso é vício e vice-versa,
É ave rara, um verde vale num deserto;
Verdade e dúvida, vertente, é descoberta
Que um verso livre é bem mais vasto que o universo.
E é deste jeito que meu verso não tem marca
Nem traz no couro a cicatriz dos compromissos
Talvez por isso seja um potro que se aparta
Dos que preferem outros versos, sem sentido.
Não tem no lombo aquele estigma do ferro
Que grava em brasa a assinatura de um patrão
Porque bem sabe que a essência de ser verso
É a liberdade plena de fúria e de som.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
CADA MILONGA É UM CAMINHO
Neste final de semana, tive a honra de participar de mais um festival por este Rio Grande afora. "Cada Milonga é um Caminho" irá compor o CD do 1º Tropilha Crioula da cidade de São Borja. Parceria com Penna Flores, a milonga foi defendida no palco por Leonardo Sarturi. Gracias, parceiros.
Abaixo, a letra:
Cada milonga que eu faço
Tem um pedaço de campo:
Uma nesga de querência
Na essência do que canto.
Cada milonga que eu canto
Tem um tanto do meu pago:
A imensidão dos açudes
Nas inquietudes que trago.
Cada milonga que eu trago
Tem rastro antigo de tropa
E ecos de algum rodeio
Em bordoneios de coplas.
Cada milonga é uma copla
Que o vento sopra baixinho
Deixando acordes e versos
Dispersos pelos caminhos.
Cada milonga é um caminho
Que o pinho parte em pedaços
E reparte em tantas rondas
Cada milonga que eu faço.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
ORIGENS DA POESIA GAUCHESCA IV
A poesia pampeana, em suas origens platinas, deve muito de sua divulgação aos "bailes de rancho", onde figurava como letra das músicas que embalavam aquelas festas. Dentre estas, uma das mais populares era chamada "gato". Segundo Ventura Lynch ("El Gaucho - Grandes Obras de la Literatura Gauchesca", Ed Plus Ultra, Bs Aires)esta composição podia ser dividida em "gato simplemente", "gato con relaciones" e "gato correntino". No "gato simples", o guitarreiro canta uma copla de intervalo em intervalo, a qual os dançarinos acompanham sapateando; no "gato con relaciones", entre copla e copla, uma vez o homem diz um verso e na outra responde-lhe a dama.
Além do "gato", havia o "estilo", sobre os quais afirma Ventura Lynch: "A melodia dos estilos é interminável. Neles se encontra a inspiração, a ideia desenvolvida ao modo do gaúcho, prescindindo por certo de regras para expressar-se".
Após o "estilo", temos o "triunfo" e o "marote", em que as guitarras tocavam em ponteados. Como baile pitoresco, havia o "palito", com letras em geral maliciosas e mesmo obscenas. A bem da verdade, estes bailes só aconteciam entre grupos da mais íntima confiança. Em contrapartida, as "huellas" eram "um grito de alegria, um suspiro e um sorriso, uma lágrima e uma gargalhada" (Ventura Lynch). Outros bailes eram conhecidos por "pericon", onde se dançava quadrilhas; o "prado", em que homem e mulher ficavam frente a frente e, apenas começava a música, dançavam acenando seus lenços, até que o cantor entoasse "De vuelta mi vida", quando o homem recolhia os lenços e iniciava o sapateado; a "firmeza", mais antiga, em que, para Lynch, "tanto a música como a letra não tinham graça nenhuma"; e os mais conhecidos, como o "malambo" e a "milonga".Importada do Perú, veio a "zambacueca", e da região de Dolores, a "chacarera". Havia, ainda, a "media caña", os "aires", os "cielos", a "mariquita" e os "tristes".
Abaixo, uma pequena amostra de versos que embalaram estes bailes de rancho:
GATO
Si me quieres te quiero
si me amas te amo;
si me olvidas te olvido:
yo a todo me hago.
Si tu madre te manda
cerrar la puerta,
Hacé sonar la llave
dejála abierta.
TRIUNFO
Este es el truinfo, madre,
dueña del alma,
más quiero dulce muerte
que vida amarga.
No hay medida que mida
mi desventura,
ní amargor más amargo
que mi amargura.
HUELLA
Dicen que las muchachas
de quince a veinte
son iguales al dulce,
pican los dientes.
A la huella, la huella,
dame los dedos
como se dan las manos
los aparceros.
PALITO
El pobre palito enfermo
tiene ganas de comer
y el medico le receta
rabadilla de mujer,
así no más es.
CHACARERA
Bailecito que me gusta
es el de la chacarera,
porque le digo a las niñas
jugando, pero es de veras.
Chacarera me has pedido,
chacarera te he de dar,
porque tengo la costumbre
el no hacerme de rogar.
RELACIONES
Homem: - Sos chiquita y bonita
no tenés comparación
sos la hermana de la luna
y sos prima del sol.
Mulher: - Soy una paloma nueva
que ahora empieza a volar,
no me digan relaciones
porque no sé contestar.
Imagem: "Baile de Campo", de Pedro Figari Solari, pintor, advogado, político, escritor e jornalista uruguaio (Montevideo, 1861-1938)
quinta-feira, 21 de abril de 2011
MEDICINA E LITERATURA NO RGS
O texto abaixo foi publicado em Março de 2011 no site da RádioSul (http://radiosul.net), a pedido do amigo Leôncio Severo. Pela repercussão positiva que teve, publico também aqui no blog.
MEDICINA E LITERATURA NO RIO GRANDE DO SUL
No ano de 1987, Dante Ledesma levantou o público da 5ª Tertúlia de Santa Maria com a composição “Orelhano”, a qual acabou por tornar-se um clássico do cancioneiro gauchesco. Três anos depois, Maria Luiza Benitez erguia o troféu de primeiro lugar na 10ª Coxilha de Cruz Alta com a música “Açude”. De comum entre as duas obras, além da qualidade, o fato de suas letras serem compostas por médicos poetas: Mario Eleú Silva e Luiz Guilherme do Prado Veppo, respectivamente.
A relação entre medicina e literatura, que em âmbito mundial teve expoentes como Anton Tchecov, Sir Arthur Conan Doyle e Somerset Maugham, entre outros, também tem na Literatura Pampeana seus grandes nomes. Relação esta que começa já no século XIX, quando a mescla das “coplas” e “romances” espanhóis com o cancioneiro indígena e dos trabalhadores rurais e “gaudérios” (também chamados “guapos” ou “camiluchos”) da Região do Pratadá forma e início à Poesia Gauchesca: um de seus pioneiros foi Claudio Mamerto Cuenca (1812-1852), Major Médico do exército de Rosas na Argentina. No Rio Grande do Sul, o primeiro romance a ser publicado, em 1847, “A Divina Pastora”, também tinha um médico como autor: José Antônio do Vale Caldre e Fião.
Já no século XX, em 1915, é publicado o poemeto campestre “Antônio Chimango”, crítica ácida e muito bem-humorada ao então Presidente do Estado, Borges de Medeiros, com autoria de Amaro Juvenal, pseudônimo de Ramiro Fortes de Barcellos, nascido em Cachoeira do Sul em 23 de agosto de 1851 e graduado em Medicina no Rio de Janeiro. Barcellos foi, ainda, deputado provincial, Secretário da Fazenda, Ministro Plenipotenciário no Uruguai e senador da República; foi o criador da moeda “Cruzeiro” no ano de 1902.
Já nos estertores do século XIX, a 1º de agosto de 1898, nasce em Tupaciretã aquele que é, até hoje, um dos principais poetas sul-riograndenses: Aureliano de Figueiredo Pinto. Também graduado na capital fluminense, em 1931, no ano seguinte já clinicava em Santiago do Boqueirão, não por acaso conhecida como “Terra dos Poetas”. Referência imortal de toda uma geração de poetas gaúchos, Aureliano muitas vezes escrevia seus versos em folhas de receituários; organizados por Túlio Piva, deram origem ao livro “Romance de Estância e Querência”. Em 1957 participa, com outros oitenta e seis poetas, da fundação da Estância da Poesia Crioula. Um destes era Balbino Marques da Rocha, que assinava suas obras com o pseudônimo “Amigaço”. Cirurgião e ginecologista, natural de Santa Maria (16 de junho de 1915), Balbino foi o “herdeiro poético” de Ramiro Barcellos, por assim dizer, ao compor seu “A Estância de Dom Sarmento”, na mesma esteira satírico-crítica do “Antônio Chimango”. Mas seus versos não se limitaram à sátira, como bem exemplificam esta estrofe dos “Poemas Campeiros”: “Espicaçando em cruzadas, / caraguatás e alecrins, / meus cascos, como estopins, / estremeceram chapadas / nas distantes alvoradas / retinidas de clarins.”
Se a Poesia Gaúcha teve nestes monstros sagrados grandes exemplos de médicos e escritores, a Prosa não ficou atrás. Dois dos maiores expoentes do Romance Regionalista da Geração de 30 eram médicos e gaúchos, ambos fronteiriços de Quaraí: Cyro Martins, nascido em 5 de agosto de 1908 – autor da notável “Trilogia do Gaúcho a Pé” – e Dyonélio Machado, de 21 de agosto de 1895, autor, entre outros, de “O Louco do Caty”. A tradição de médicos gaúchos escritores chegou aos dias atuais com o genial Moacyr Scliar – recentemente falecido -, José Eduardo Degrazia, Celso Gutfreind, entre outros.
O advento dos festivais, a partir da Califórnia de Uruguaiana, também revelou o talento dos médicos poetas como compositores e letristas; desta vertente vem os já citados Luiz Guilherme do Prado Veppo e Mario Eleú Silva (cujo filho, Eduardo, é anestesista e músico de inspiração ímpar), e ainda Jaime Vaz Brasil, Antônio Carlos Boeira e Túlio Souza, este da nova geração.
No arremate destas linhas, deixo as últimas estrofes de “Chimarrão da Madrugada”, do mestre maior Aureliano de Figueiredo Pinto, do livro “Romance de Estância e Querência”, Editora Globo, 1959:
(...)”Ah! Sangue velho... Descubro
porque hoje estás de vigília:
- Dois séculos de Fronteiras.
de madrugadas campeiras,
de velhas guardas guerreiras
bombeando pampa e coxilha!
Por isso é que hoje não dormes!
Ouviste a voz de ancestrais:
-"O chimarrão principia!
Alerta! O campo vigia!
Da meia-noite pra o dia
Um taura não dorme mais...”
Foto: premiação da 10ª Coxilha Nativista de Cruz Alta
domingo, 10 de abril de 2011
CENA RURAL V
Rasgando a coxilha ao meio
Entre o pastiçal que medra:
É uma serpente espraiando
Seu esqueleto de pedra.
Quantos séculos de história
Em léguas de rocha bruta
Contando causos de guerra,
De batalhas e disputas.
Erguida por mãos escravas
Com sangue e calos nas palmas
Deixou fundas cicatrizes
Mais que no corpo, na alma.
É a história viva da Pampa
Encravada em suas entranhas
Cerca de Pedra ancestral
Na vastidão da Campanha
Foto: Cláudia Albornoz, Quaraí, Janeiro de 2010
Versos: marcelo d´ávila
sexta-feira, 8 de abril de 2011
OS PIONEIROS IV
Nascido em Buenos Aires em 6 de maio de 1809, JUAN MARIA GUTIÉRREZ estudou no Colegio San Carlos, onde demonstrou certa inclinação para as Ciências Exatas. Quase formou-se em Engenharia Civil, chegando a trabalhar por um tempo no Departamento Topográfico, mas acabou por estudar Direito, concluindo o curso em 1834. Já em 1832 incorpora-se ao movimento literário do Romantismo, fazendo amizade com Estebán Echevarria, Marco Avellaneda, Juan Thompson e outros. Foi um dos fundadores da "Asociación de Mayo", grupo político que combatia o governo de Don Juan Manuel de Rosas. Perseguido pelo poder central, viajou por Montevideo, Europa, Rio de Janeiro, Chile e Peru. Em 1852 retornou a Buenos Aires, onde foi nomeado Ministro no governo de Don Vicente Polez. Foi um dos Deputados Constituintes em 1853 e, em 1861, foi nomeado por Bartolomé Mitre Reitor da Universidade Federal. Faleceu em 20 de fevereiro de 1878, na cidade natal.
Abaixo, trechos de "A Mi Caballo" , tema tão caro aos poetas gauchescos:
Rey de los llanos de la patria mía,
mi tostado alazán; quien me volviera
tu fiel y generosa compañía
y tu mirada inteligente y fiera!
Has llorado por mi?, cuando otra mano
limpia el polvo a la crin de tus melenas,
recibes las caricias siempre ufano,
adviertes, alazán, que son ajenas?
Tu pobre dueño errante, vagabundo,
tan sólo de recuerdos he vivido
y en todos los caminos de este mundo
la imagen de la patria le ha seguido.
Patria es amor, es entusiasmo, es gloria
es el aliento de la vida humana,
la constante visión de la memoria,
el sueño de la noche y la mañana.
(...)
Imagem: "Caballo", de Angel Della Valle (Bs Aires, 1852-1903). Della Valle estudou na Itália com Antonio Cesare, retornando à Argentina em 1883. Notabilizou-se por pintar motivos rurais, como gaúchos, domas, os ranchos, a terra e a paisagem típicos da Pampa. Também retratou os "malones" e os índios do Prata.
quarta-feira, 30 de março de 2011
ALÉM DO MATE
Referência na música nativista na região da fronteira nos anos 80, o Grupo Os Andarilhos foi reformulado em 2008 por um de seus criadores, Clóvis de Souza. Acompanhando-o na nova composição, os músicos Gringo Otero, Waldir "Rato", Jefersom Rafaeal e Ederson Brochi. No mesmo ano, Os Andarilhos lançaram um novo trabalho discográfico, chamado "Carga Pesada". A faixa de número 13 é "Além do Mate", com letra minha e melodia do Clóvis.
Abaixo, a letra de "Além do Mate":
Que coisa linda
Se abraçar no pinho
E bordonear rasguidos
Com a luz da lua
A fazer as vezes
De candieiro antigo
Uma coruja pia
Em contraponto
Um sol em sustenido
Buscando um ninho
Embaixo das estrelas
Que lhe dê abrigo
Que coisa linda
Se abancar à sombra
De alguma figueira
Trançando rimas
Num sovéu de versos
Em ritual terrunho
É o catecismo
Dos poetas xucros
De alma galponeira
Que nos altares
De tantas tertúlias
Dão seu testemunho
Mas verso e pinho
Só terão sentido
Se semearem ânsias
De um novo tempo
Onde não falte erva
Pelos ranchos pobres
E além do mate
As bocas desnutritas
Sorvam a esperança
De que a palavra
Vale mais que o brilho
Enganador dos cobres
segunda-feira, 28 de março de 2011
ARGENTINO LUNA (1941-2011)
Na noite em que a lua cheia mostrou toda sua beleza, no ponto mais próximo da Terra, se fué Luna. Nascido Rodolfo Gimenez, em General Madariaga, foi um dos mais expressivos artistas do folclore platense.
Abaixo, colo seu poema "Palabras para mi Hija". Não é preciso dizer mais nada.
Hija si me caigo en el camino,
La muerte es una rodada...
Hija una cosa te pido...
Que me cuides la guitarra
Ella fue todo en mi vida,
Novia de mis noches largas
Con ella salí al camino
Para llenarme de magia
Con ella gané la ausencia
Sabiendo que me extrañabas
Pero al llegar de regreso
Puse estrellas en tu almohada
Me fui del niño hasta el hombre
Gané y perdí mil batallas
Peoncito de pocas letras,
Ella fué mi libro y mi aula
Andando por los caminos
Al recordarte lloraba
Y en algún pago lejano
Con ella me consolaba
Me cuidó del vino triste
Para que no me embriagara
Y bebió en mis alegrías
El vino de las distancias
Con ella vestí tu cuerpo
Pinté de blanco tu casa
Con ella te compré un libro
Para abrirte una ventana
Hija.... si anduve callao
No te faltó mi palabra
Aprendí que en los silencios
El ser encuentra la calma
Esto aprendí en los campos
En las noches de la pampa
Oyendo cantar al río
Sin decir una palabra
Entre tu mundo y mi mundo
Hay un mundo de distancia
Donde se acaba mi mundo
Empieza el de tu esperanza
Al tiempo no se lo ve
Pero se siente en la espalda
Yo voy con rumbo a la noche
Para vos comienza el alba
De las cosas materiales
Te dejo poquito o nada
Lo justo no será mucho,
No sobrará pero alcanza
Te dejo un camino recto
En dinero ni una deuda
Pagué todas las facturas
Que la vida me cobrara
Perdoné y me perdonaron
Con eso, con eso basta y alcanza
Ni más ni menos que nadie
Dudando entraré a la nada
Por eso quiero pedirte
No llores, no llores cuando me vaya
Piensa que me fui de viaje
Con un libro y la guitarra
Y que tardaré en volver
Porque esta gira es muy larga
Si quieres rezar por mí
Hija canta, canta
La ausencia es menos ausencia
Con una copla en el alma
Al partir te pido poco,
Mejor dicho casi nada
Hija, hija tan solo te pido
Que me cuides la guitarra.
Post dedicado a Jader Leal
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