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domingo, 20 de março de 2011

POETAS GAÚCHOS I : LAURO RODRIGUES



Lauro Pereira Rodrigues nasceu em Santo Amaro do Sul no ano de 1918. Foi pioneiro ao criar e apresentar, com apenas 18 anos de idade, o primeiro programa radiofônico de atrações exclusivamente regionais, Campereadas, na Rádio Sociedade Gaúcha, programa que revelou para o Estado o cantor Pedro Raymundo.
Membro da Estância da Poesia Crioula, sua poesia, além do regionalismo, tem um forte viés de denúncia social e política, como provam os versos de "Aleluia", postados abaixo.
Eleito Deputado Federal pelo Rio Grande do Sul, Lauro Rodrigues morreu em 17 de dezembro de 1978, em um acidente náutico nas águas do Guaíba sob circunstâncias nunca esclarecidas.

ALELUIA

Velho pampa lendário de outras eras,
onde se erguem lúgubres taperas,
tripudiando quais flâmulas de luto:
nessas tardes de junho, ao sol poente,
parece-me que sinto o que tu sentes
quando o silêncio do teu campo escuto...

A brisa nas carquejas do varzedo,
chorando, confessa que tens mêdo
de enfrentar esta miséria atroz...
E na tristeza sem fim dos corredores
vibram hinos de brados e clamores
contra as algemas da canalha algoz...

Mas não percebes, decrépito campeiro,
que as rondas do abutre carniceiro,
grasnam sobre ti funéreo agouro;
que és o braço do ¨Gigante¨ que mendiga
e ¨deitado em berço explêndido¨ se obriga
a pedir pão sob um dossel de ouro?...

Esquece as condições de teu presente!
Larga o trôpego andar do indigente
e relembra o que fostes em tempos idos...
Deixa a tua lança, adormecida e quieta!
A guerra é de doutrinas... Vem! Desperta
que os dias de porvir serão vividos...

Pois, pressinto na fome de meu filho
que um vulcão de revolta aclara o trilho
por onde segue a procissão dos pais...
Desperta Rio Grande! Chama o Brasil
antes que a voz da bôca de um fuzil
não lhe consinta despertar jamais...

Pobre Pátria de vinte e tantas zonas
que tem no seu ventre o Amazonas
e agoniza de fome nas cidades...
Zôo de macacos galhofeiros,
plagiando o viver dos estrangeiros
desde o Batismo à Universidade...

Tenho pena de ti, - senzala branca! -
dessa coletividade honesta e franca
que de tanto esperar já desespera...
Tuas vísceras são campos de imundícies,
onde o vírus malsão das canalhices
se robustece, cresce e prolifera...

Enquanto isso, cérebros raquíticos,
- sanguessugas de pântanos políticos! -
fomentam leis que não trescalam nada...
Mas não tarda que a aurora do futuro
tinja de escarlete o céu escuro
dos párias desta estância abandonada...

Nesse dia, meu pampa, os teus heróis,
ostentando nas mãos raios de sóis
e cavalgando fagulhas celestiais,
virão beber na fúria dos motins,
o sangue nutrido nos festins
dos que colheram sem semear jamais...

E, então, o marco de uma nova era,
surgirá num ermo de tapera
substituindo o pedestal de imbuia,
para que o povo todo num só grito,
possa bradar da Terra ao Infinito:
ALELUIA!...ALELUIA!...ALELUIA!...

Post dedicado à família Ortaça: Rose, Pedro e Gabriel.

Imagem do livro "Senzala Branca", Editora 3 Chirus, Porto Alegre, 1958.

2 comentários:

  1. Confesso que não conhecia praticamente nada deste poeta. Apenas havia ouvido falar em sua obra.
    Maravilhoso poema! E como ele escreve a última frase poética de cada verso, como quem subentende ou sugere!
    Excelente post Marcelo!
    Sempre é muito bom visitar teu blog!
    Grande abraço!
    Humoremconto
    http://anaceciliaromeu.blogspot.com

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  2. Olá Marcelo, antes de mais nada deixa eu me apresentar: Maria da Graça, sou filha do Lauro Rodrigues e fiquei emocionada ao me deparar com teu blog onde mencionas uma das poesias mais lindas do pai!Muito obrigada e um grande abraço!
    http://graçarodrigues.blogspot.com

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