"Eu sou Gaúcho e me chega pra ser feliz no Universo" ("Eis o Homem", Marco Aurélio Campos)
Total de visualizações de página
quarta-feira, 20 de julho de 2011
CENA RURAL V
A ideia inicial da série "Cenas Rurais", além de divulgar o excelente trabalho fotográfico de Cláudia Albornoz (minha prenda), é levar aos leitores e visitantes do blog um pouco do telurismo, do bucolismo e da simplicidade da Região da Campanha. Hoje, no entanto, abro uma exceção: os versos trazem a indignação com a inércia que tomou conta da Fronteira. Certamente que não estão à altura da foto, mas soam como um grito de alerta.
Gracias a todos.
Uma tapera esquecida
Pros lados da Caneleira
Parece o fiel retrato
Da situação da fronteira.
Um velho marco judiado
Meio com cara de sono
Completa o quadro real
De descaso e abandono.
Há quem diga que os bons ventos
Que sopram no Cerro Chato
Possam mudar a verdade
Pintada neste retrato.
Mas “quem sabe faz a hora” –
Já ensinava a canção –
Se um pingo passa encilhado
Não se perde a ocasião.
Erguer os olhos pro céu,
Braços cruzados, à espera,
Não vai tirar da fronteira
Seu destino de tapera.
Foto: Claudia Albornoz, região da Caneleira, Santana do Livramento/Rivera, maio de 2011
Versos: marcelo d´ávila, julho de 2011
domingo, 19 de junho de 2011
MEU VERSO CHIMARRÃO
"A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria (...)" - William Shakespeare, McBeth, Cena V, Ato V
Nos dias 15, 16 e 17 de Abril, ocorreu na cidade de Bagé a 8ª Galponeira, no Parque do Gaúcho.
Um público expressivo compareceu ao local, prestigiando o evento que apresenteou alto nível nas composições, com participação de intérpretes como Pirisca Grecco, Marcelo Oliveira, Matheus Leal, Ita Cunha, Rafael Capistrano, Daniel Cavalheiro, entre outros.
Tive a honra, mais uma vez, de ter uma composição classificada para o CD: o Chamamé "Meu Verso Chimarrão", parceria com Juliano Moreno, levada ao palco de forma brilhante pelo Juliano, Érlon Péricles, Clóvis de Souza, Daniel Cavalheiro, Marcelinho Nunes e Clarissa Ferreira. A todos meu muchas gracias! E também meu agradecimento a Davi Teixeira, Rodrigo Tavares, Francisco Brasil, Fabinho Maciel e Betinho Teixeira.
Abaixo, a letra de "Meu Verso Chimarrão" e a foto do corpo de jurados.
Em tempo, "chimarrão" era chamado o gado selvagem, sem dono, nos primórdios do século.
É bem verdade que meu verso não tem marca
Pois traz o couro imaculado dos libertos;
É como um potro mal domado que se aparta
Do conformismo e da mesmice de outros versos.
Não tem no lombo aquele estigma do ferro
Que grava em brasa a assinatura de um patrão
Porque bem sabe que a essência de ser verso
É a liberdade plena de fúria e de som.
O verso é vida, o verso é vício e vice-versa,
É ave rara, um verde vale num deserto;
Verdade e dúvida, vertente, é descoberta
Que um verso livre é bem mais vasto que o universo.
E é deste jeito que meu verso não tem marca
Nem traz no couro a cicatriz dos compromissos
Talvez por isso seja um potro que se aparta
Dos que preferem outros versos, sem sentido.
Não tem no lombo aquele estigma do ferro
Que grava em brasa a assinatura de um patrão
Porque bem sabe que a essência de ser verso
É a liberdade plena de fúria e de som.
Nos dias 15, 16 e 17 de Abril, ocorreu na cidade de Bagé a 8ª Galponeira, no Parque do Gaúcho.
Um público expressivo compareceu ao local, prestigiando o evento que apresenteou alto nível nas composições, com participação de intérpretes como Pirisca Grecco, Marcelo Oliveira, Matheus Leal, Ita Cunha, Rafael Capistrano, Daniel Cavalheiro, entre outros.
Tive a honra, mais uma vez, de ter uma composição classificada para o CD: o Chamamé "Meu Verso Chimarrão", parceria com Juliano Moreno, levada ao palco de forma brilhante pelo Juliano, Érlon Péricles, Clóvis de Souza, Daniel Cavalheiro, Marcelinho Nunes e Clarissa Ferreira. A todos meu muchas gracias! E também meu agradecimento a Davi Teixeira, Rodrigo Tavares, Francisco Brasil, Fabinho Maciel e Betinho Teixeira.
Abaixo, a letra de "Meu Verso Chimarrão" e a foto do corpo de jurados.
Em tempo, "chimarrão" era chamado o gado selvagem, sem dono, nos primórdios do século.
É bem verdade que meu verso não tem marca
Pois traz o couro imaculado dos libertos;
É como um potro mal domado que se aparta
Do conformismo e da mesmice de outros versos.
Não tem no lombo aquele estigma do ferro
Que grava em brasa a assinatura de um patrão
Porque bem sabe que a essência de ser verso
É a liberdade plena de fúria e de som.
O verso é vida, o verso é vício e vice-versa,
É ave rara, um verde vale num deserto;
Verdade e dúvida, vertente, é descoberta
Que um verso livre é bem mais vasto que o universo.
E é deste jeito que meu verso não tem marca
Nem traz no couro a cicatriz dos compromissos
Talvez por isso seja um potro que se aparta
Dos que preferem outros versos, sem sentido.
Não tem no lombo aquele estigma do ferro
Que grava em brasa a assinatura de um patrão
Porque bem sabe que a essência de ser verso
É a liberdade plena de fúria e de som.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
CADA MILONGA É UM CAMINHO
Neste final de semana, tive a honra de participar de mais um festival por este Rio Grande afora. "Cada Milonga é um Caminho" irá compor o CD do 1º Tropilha Crioula da cidade de São Borja. Parceria com Penna Flores, a milonga foi defendida no palco por Leonardo Sarturi. Gracias, parceiros.
Abaixo, a letra:
Cada milonga que eu faço
Tem um pedaço de campo:
Uma nesga de querência
Na essência do que canto.
Cada milonga que eu canto
Tem um tanto do meu pago:
A imensidão dos açudes
Nas inquietudes que trago.
Cada milonga que eu trago
Tem rastro antigo de tropa
E ecos de algum rodeio
Em bordoneios de coplas.
Cada milonga é uma copla
Que o vento sopra baixinho
Deixando acordes e versos
Dispersos pelos caminhos.
Cada milonga é um caminho
Que o pinho parte em pedaços
E reparte em tantas rondas
Cada milonga que eu faço.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
ORIGENS DA POESIA GAUCHESCA IV
A poesia pampeana, em suas origens platinas, deve muito de sua divulgação aos "bailes de rancho", onde figurava como letra das músicas que embalavam aquelas festas. Dentre estas, uma das mais populares era chamada "gato". Segundo Ventura Lynch ("El Gaucho - Grandes Obras de la Literatura Gauchesca", Ed Plus Ultra, Bs Aires)esta composição podia ser dividida em "gato simplemente", "gato con relaciones" e "gato correntino". No "gato simples", o guitarreiro canta uma copla de intervalo em intervalo, a qual os dançarinos acompanham sapateando; no "gato con relaciones", entre copla e copla, uma vez o homem diz um verso e na outra responde-lhe a dama.
Além do "gato", havia o "estilo", sobre os quais afirma Ventura Lynch: "A melodia dos estilos é interminável. Neles se encontra a inspiração, a ideia desenvolvida ao modo do gaúcho, prescindindo por certo de regras para expressar-se".
Após o "estilo", temos o "triunfo" e o "marote", em que as guitarras tocavam em ponteados. Como baile pitoresco, havia o "palito", com letras em geral maliciosas e mesmo obscenas. A bem da verdade, estes bailes só aconteciam entre grupos da mais íntima confiança. Em contrapartida, as "huellas" eram "um grito de alegria, um suspiro e um sorriso, uma lágrima e uma gargalhada" (Ventura Lynch). Outros bailes eram conhecidos por "pericon", onde se dançava quadrilhas; o "prado", em que homem e mulher ficavam frente a frente e, apenas começava a música, dançavam acenando seus lenços, até que o cantor entoasse "De vuelta mi vida", quando o homem recolhia os lenços e iniciava o sapateado; a "firmeza", mais antiga, em que, para Lynch, "tanto a música como a letra não tinham graça nenhuma"; e os mais conhecidos, como o "malambo" e a "milonga".Importada do Perú, veio a "zambacueca", e da região de Dolores, a "chacarera". Havia, ainda, a "media caña", os "aires", os "cielos", a "mariquita" e os "tristes".
Abaixo, uma pequena amostra de versos que embalaram estes bailes de rancho:
GATO
Si me quieres te quiero
si me amas te amo;
si me olvidas te olvido:
yo a todo me hago.
Si tu madre te manda
cerrar la puerta,
Hacé sonar la llave
dejála abierta.
TRIUNFO
Este es el truinfo, madre,
dueña del alma,
más quiero dulce muerte
que vida amarga.
No hay medida que mida
mi desventura,
ní amargor más amargo
que mi amargura.
HUELLA
Dicen que las muchachas
de quince a veinte
son iguales al dulce,
pican los dientes.
A la huella, la huella,
dame los dedos
como se dan las manos
los aparceros.
PALITO
El pobre palito enfermo
tiene ganas de comer
y el medico le receta
rabadilla de mujer,
así no más es.
CHACARERA
Bailecito que me gusta
es el de la chacarera,
porque le digo a las niñas
jugando, pero es de veras.
Chacarera me has pedido,
chacarera te he de dar,
porque tengo la costumbre
el no hacerme de rogar.
RELACIONES
Homem: - Sos chiquita y bonita
no tenés comparación
sos la hermana de la luna
y sos prima del sol.
Mulher: - Soy una paloma nueva
que ahora empieza a volar,
no me digan relaciones
porque no sé contestar.
Imagem: "Baile de Campo", de Pedro Figari Solari, pintor, advogado, político, escritor e jornalista uruguaio (Montevideo, 1861-1938)
quinta-feira, 21 de abril de 2011
MEDICINA E LITERATURA NO RGS
O texto abaixo foi publicado em Março de 2011 no site da RádioSul (http://radiosul.net), a pedido do amigo Leôncio Severo. Pela repercussão positiva que teve, publico também aqui no blog.
MEDICINA E LITERATURA NO RIO GRANDE DO SUL
No ano de 1987, Dante Ledesma levantou o público da 5ª Tertúlia de Santa Maria com a composição “Orelhano”, a qual acabou por tornar-se um clássico do cancioneiro gauchesco. Três anos depois, Maria Luiza Benitez erguia o troféu de primeiro lugar na 10ª Coxilha de Cruz Alta com a música “Açude”. De comum entre as duas obras, além da qualidade, o fato de suas letras serem compostas por médicos poetas: Mario Eleú Silva e Luiz Guilherme do Prado Veppo, respectivamente.
A relação entre medicina e literatura, que em âmbito mundial teve expoentes como Anton Tchecov, Sir Arthur Conan Doyle e Somerset Maugham, entre outros, também tem na Literatura Pampeana seus grandes nomes. Relação esta que começa já no século XIX, quando a mescla das “coplas” e “romances” espanhóis com o cancioneiro indígena e dos trabalhadores rurais e “gaudérios” (também chamados “guapos” ou “camiluchos”) da Região do Pratadá forma e início à Poesia Gauchesca: um de seus pioneiros foi Claudio Mamerto Cuenca (1812-1852), Major Médico do exército de Rosas na Argentina. No Rio Grande do Sul, o primeiro romance a ser publicado, em 1847, “A Divina Pastora”, também tinha um médico como autor: José Antônio do Vale Caldre e Fião.
Já no século XX, em 1915, é publicado o poemeto campestre “Antônio Chimango”, crítica ácida e muito bem-humorada ao então Presidente do Estado, Borges de Medeiros, com autoria de Amaro Juvenal, pseudônimo de Ramiro Fortes de Barcellos, nascido em Cachoeira do Sul em 23 de agosto de 1851 e graduado em Medicina no Rio de Janeiro. Barcellos foi, ainda, deputado provincial, Secretário da Fazenda, Ministro Plenipotenciário no Uruguai e senador da República; foi o criador da moeda “Cruzeiro” no ano de 1902.
Já nos estertores do século XIX, a 1º de agosto de 1898, nasce em Tupaciretã aquele que é, até hoje, um dos principais poetas sul-riograndenses: Aureliano de Figueiredo Pinto. Também graduado na capital fluminense, em 1931, no ano seguinte já clinicava em Santiago do Boqueirão, não por acaso conhecida como “Terra dos Poetas”. Referência imortal de toda uma geração de poetas gaúchos, Aureliano muitas vezes escrevia seus versos em folhas de receituários; organizados por Túlio Piva, deram origem ao livro “Romance de Estância e Querência”. Em 1957 participa, com outros oitenta e seis poetas, da fundação da Estância da Poesia Crioula. Um destes era Balbino Marques da Rocha, que assinava suas obras com o pseudônimo “Amigaço”. Cirurgião e ginecologista, natural de Santa Maria (16 de junho de 1915), Balbino foi o “herdeiro poético” de Ramiro Barcellos, por assim dizer, ao compor seu “A Estância de Dom Sarmento”, na mesma esteira satírico-crítica do “Antônio Chimango”. Mas seus versos não se limitaram à sátira, como bem exemplificam esta estrofe dos “Poemas Campeiros”: “Espicaçando em cruzadas, / caraguatás e alecrins, / meus cascos, como estopins, / estremeceram chapadas / nas distantes alvoradas / retinidas de clarins.”
Se a Poesia Gaúcha teve nestes monstros sagrados grandes exemplos de médicos e escritores, a Prosa não ficou atrás. Dois dos maiores expoentes do Romance Regionalista da Geração de 30 eram médicos e gaúchos, ambos fronteiriços de Quaraí: Cyro Martins, nascido em 5 de agosto de 1908 – autor da notável “Trilogia do Gaúcho a Pé” – e Dyonélio Machado, de 21 de agosto de 1895, autor, entre outros, de “O Louco do Caty”. A tradição de médicos gaúchos escritores chegou aos dias atuais com o genial Moacyr Scliar – recentemente falecido -, José Eduardo Degrazia, Celso Gutfreind, entre outros.
O advento dos festivais, a partir da Califórnia de Uruguaiana, também revelou o talento dos médicos poetas como compositores e letristas; desta vertente vem os já citados Luiz Guilherme do Prado Veppo e Mario Eleú Silva (cujo filho, Eduardo, é anestesista e músico de inspiração ímpar), e ainda Jaime Vaz Brasil, Antônio Carlos Boeira e Túlio Souza, este da nova geração.
No arremate destas linhas, deixo as últimas estrofes de “Chimarrão da Madrugada”, do mestre maior Aureliano de Figueiredo Pinto, do livro “Romance de Estância e Querência”, Editora Globo, 1959:
(...)”Ah! Sangue velho... Descubro
porque hoje estás de vigília:
- Dois séculos de Fronteiras.
de madrugadas campeiras,
de velhas guardas guerreiras
bombeando pampa e coxilha!
Por isso é que hoje não dormes!
Ouviste a voz de ancestrais:
-"O chimarrão principia!
Alerta! O campo vigia!
Da meia-noite pra o dia
Um taura não dorme mais...”
Foto: premiação da 10ª Coxilha Nativista de Cruz Alta
domingo, 10 de abril de 2011
CENA RURAL V
Rasgando a coxilha ao meio
Entre o pastiçal que medra:
É uma serpente espraiando
Seu esqueleto de pedra.
Quantos séculos de história
Em léguas de rocha bruta
Contando causos de guerra,
De batalhas e disputas.
Erguida por mãos escravas
Com sangue e calos nas palmas
Deixou fundas cicatrizes
Mais que no corpo, na alma.
É a história viva da Pampa
Encravada em suas entranhas
Cerca de Pedra ancestral
Na vastidão da Campanha
Foto: Cláudia Albornoz, Quaraí, Janeiro de 2010
Versos: marcelo d´ávila
sexta-feira, 8 de abril de 2011
OS PIONEIROS IV
Nascido em Buenos Aires em 6 de maio de 1809, JUAN MARIA GUTIÉRREZ estudou no Colegio San Carlos, onde demonstrou certa inclinação para as Ciências Exatas. Quase formou-se em Engenharia Civil, chegando a trabalhar por um tempo no Departamento Topográfico, mas acabou por estudar Direito, concluindo o curso em 1834. Já em 1832 incorpora-se ao movimento literário do Romantismo, fazendo amizade com Estebán Echevarria, Marco Avellaneda, Juan Thompson e outros. Foi um dos fundadores da "Asociación de Mayo", grupo político que combatia o governo de Don Juan Manuel de Rosas. Perseguido pelo poder central, viajou por Montevideo, Europa, Rio de Janeiro, Chile e Peru. Em 1852 retornou a Buenos Aires, onde foi nomeado Ministro no governo de Don Vicente Polez. Foi um dos Deputados Constituintes em 1853 e, em 1861, foi nomeado por Bartolomé Mitre Reitor da Universidade Federal. Faleceu em 20 de fevereiro de 1878, na cidade natal.
Abaixo, trechos de "A Mi Caballo" , tema tão caro aos poetas gauchescos:
Rey de los llanos de la patria mía,
mi tostado alazán; quien me volviera
tu fiel y generosa compañía
y tu mirada inteligente y fiera!
Has llorado por mi?, cuando otra mano
limpia el polvo a la crin de tus melenas,
recibes las caricias siempre ufano,
adviertes, alazán, que son ajenas?
Tu pobre dueño errante, vagabundo,
tan sólo de recuerdos he vivido
y en todos los caminos de este mundo
la imagen de la patria le ha seguido.
Patria es amor, es entusiasmo, es gloria
es el aliento de la vida humana,
la constante visión de la memoria,
el sueño de la noche y la mañana.
(...)
Imagem: "Caballo", de Angel Della Valle (Bs Aires, 1852-1903). Della Valle estudou na Itália com Antonio Cesare, retornando à Argentina em 1883. Notabilizou-se por pintar motivos rurais, como gaúchos, domas, os ranchos, a terra e a paisagem típicos da Pampa. Também retratou os "malones" e os índios do Prata.
Assinar:
Postagens (Atom)








